Algumas palavras sofrem de crise de identidade. Com uso e desuso, desgastam-se e, com o passar dos anos, ressignificam-se. Cansadas de serem ditas por qualquer boca, de terem seus significados perdidos ou deturpados e escritas em qualquer postagem de rede social, elas decidiram se revoltar. O clima era de um autêntico desgosto palavral. Reunidas em assembleia, cada uma expressou seu descontentamento.
A Sra. Assembleia, batendo o martelo para silenciar o dicionário inteiro, anunciou: — Ordem no verbete! Está aberta a sessão. Palavras, dou-lhes a palavra. Quem tiver uma crise semântica, que atire a primeira letra.
— Minhas amigas — diz o Sr. Fabuloso, saltando à frente e ajeitando a gravata — cansei de ser usado para descrever decorações de festas infantis e bolos de pote. Quero uma mudança radical! Meu sonho é significar “imensas bulas de remédios”. Imagine o mistério, o drama, o perigo de ser um efeito colateral e a alegria de ser uma posologia que cura! — sentou-se, aplaudido por três adjetivos e um advérbio de modo.
Logo adiante, o Sr. Petisqueiro, tão velho que cheirava a mofo, levantou-se, tremendo, com o auxílio de uma bengala: — Estou em desuso, eu sei. Mas quero me modernizar. Quero significar “um lugar onde se faz muito piti”. É uma questão de sonoridade, entende? O povo já faz o escândalo, eu só quero dar o nome ao recinto, ao lugar.
Nesse momento, a Sra. Piti deu piti, digo, deu um salto, quase derrubando seus irmãos gêmeos, o Escândalo e o Chilique: — Ah, mas nem por cima do meu “P”! Se ele vira lugar, eu viro o quê? Imobiliária?
As palavras ao redor acalmam-na e ficam ali só no cochicho umas com as outras.
— Amigas, — tomando a voz a Sra. Chumbrega, que usava uma capa de chuva de plástico e meias com sandálias — Parem de brigar! Eu, que sou o auge do cafona e da esquisitice só queria mesmo era significar um elemento químico. Algo nobre na Tabela Periódica tipo, “Chumbregânio”. Já pensou? Se eu fosse um gás nobre, ninguém me chamaria de esquisita.
Lá do fundo, a Sra. Sirigaita soltou um grito de indignação: — Eu exijo um visto permanente para Portugal! Aqui no Brasil, me usam para xingamento e ofensa; lá, eu sou apenas uma “moça espevitada e vivaz, que tem resposta pra tudo”. Se não me respeitarem, mudo meu significado agora para “um siri tocando gaita”. É melhor do que ser ofensa em grupo de WhatsApp!
A Sra. Marmota, que estava sonolenta, teve um estalo: — Quero uma cirurgia plástica lexical. Vou arrancar o “mota”. Quero ser apenas “Mar”. Sou poética, sou profunda, sou salgada e vivo em ondas! — e começou a imitar o som das ondas mexendo os braços, sendo ignorada por todos.
— Também quero fazer umas mudancinhas em mim: — apresentando sua queixa a Sra. Abundância — quero tirar esse primeiro “A” e também o “ncia”. Ser algo diferente. Inesperado!
A Sra. Abundância foi imediatamente interpelada pelo Sr. Decoro e pela Sra. Decência: — Nem pense nisso! Se você tirar esse prefixo e o sufixo, o que sobra é uma palavra que não cai bem. Mantenha a compostura, Sra. Abundância!
— Aproveitando a palavra, queremos aqui registrar nossa queixa — Sra. Decência e Sr. Decoro se manifestam — porque estamos ausentes do mundo político e até no meio do povo comum. Simplesmente não nos usam mais. Isso é uma crise sem precedentes! Seremos extintas? — e a pergunta ficou sem resposta, apenas cabeças baixas.
No canto VIP, a Sra. Mentira e a Sra. Hipocrisia faziam selfies e bebiam champanhe: — Crise? Que crise, queridinhos? — debochou a Mentira. — Nós somos as rainhas do século, digo, dos séculos! Estamos no horário nobre, nos discursos políticos, no jornalismo e em todos os perfis com filtro. A gente não se ressignifica, a gente se multiplica!
Nesse momento Sr. Amor e Sra. Roma conversam sobre os significados, mas não se entendiam, por serem palíndromos (palavras que podem se lidas da direita para a esquerda e vice-versa); uma falava uma coisa, a outra entendia o contrário; uma confusão.
As palavras, cada uma tomado a palavra, continuavam suas declarações e queixumes.
O Sr. Aperitivo, sentindo-se pequeno, reclamou: — Cansei de ser “tragos mínimos e pequenas porções”, ser apenas uma azeitona antes do almoço. Quero ser algo mais, mais nobre, mais inspirador e natural. Quero ser nome de passarinho. Algo que voe alto, e não algo que acabe em cinco minutos numa mesa de bar. — Senta-se, mantendo o olhar esperançoso no vazio.
— Amigas palavras, — Sra. Aquiescência tomando a palavra — vocês sabem que me assumo como saudosista e valorizo o passado. Meu antepassado em latim Acquiescentia, significava “não fazer nada”. Porém, hoje, eu cansei de significar “concordar” e ”anuir”. Quero voltar a esse seu antigo significado: “não fazer nada” deve ser muito bom para palavras já idosas.
O Sr. Arcaico, bufando, interrompeu: — Ninguém mais valoriza o que é vintage! Estou cansado de ser “antiquado” e “obsoleto”, e desejo uma repaginada significal. Decidi: a partir de hoje, quero ser nome de banda de Heavy Metal tipo assim “Kid Arcaico e os Obsoletos”. O impacto é muito maior.
Nesse momento, Sra. Arenga e Sr. Quiproquó ensaiam um pequeno tumulto. Iniciaram com uns tapas sintáticos, mas logo foram contidas pela Sr. Deixa-disso, que já estava sem fôlego.
— Também quero expressar minha insatisfação, Sra. Assembleia — falando o Sr. Formidável. — Vocês sabem que o meu significado é “excelente, magnífico, espetacular”. No entanto, Sras. palavras, nem sempre fui assim: antigamente eu era Formidabilis (temível), que queria dizer “terrível, pavoroso, assustador, algo que inspira medo ou pavor.” Como vocês bem sabem, hoje eu não inspiro medo em ninguém. Quero voltar a esse antigo significado para, pelo menos, ser respeitado pelo medo e pavor, já que por consideração não somos respeitadas.
Após, o Sr. Gerúndio, tomando a voz, se dirige aos presentes.
— Colegas do Léxico, sou uma forma nominal de verbo, indico uma ação contínua (tipo andando, falando, partindo), expressando processo ou continuidade. Na verdade, não quero mudar meu significado. Tenho um sonho: quero ter um nome completo, como os humanos; quero nome e sobrenome, algo comum como ‘Gerúndio Oclusivo Permúcio”. Apenas isso, minhas amigas.
A reunião continuou com queixumes diversos, sem hora nem palavras para terminar. De modo geral as palavras se revoltaram com seu uso, desuso e significados. Reclamaram por não terem mais os significados e usos antigos e almejavam ressignificações, uma renovação semântica.
Por fim, levanta-se o Sr. Tempo, que estava silencioso até o momento. Contempla as suas irmãs palavras.
— E você, Sr. Tempo, quer falar? Que mudanças quer fazer no seu significado? Não vai pedir uma reforma? Mudar o passado? Adiantar o presente? Saber o futuro? — alguns perguntam.
O Sr. Tempo, deu uma olhada no relógio (que era ele mesmo) e disse: — Não, minhas amigas, não quero a palavra. Estou só passando — e saiu.
Com o passar do Tempo, a reunião se desfez em silêncio. E foram-se… não só levadas, mas mudadas pelo tempo.
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Aldair Ribeiro dos Santos
Membro da ALACA – Academia de Literatura Cultura e Arte da Amazônia, pedagogo, tem poesias e contos premiados e publicadas em 38 antologias nacionais e em sites (sendo uma antologia bilingue lançada nos EUA). Já tem 25 premiações literárias diversas em concursos e prêmios, incluindo “Melhor página literária da Região Norte” e o “Prêmio Professor Excelência do Estado de Roraima”. Autor do livro contundente “A impossível tarefa de fazer gestão democrática na escola – e outras considerações impossíveis” (editora Appris).
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Respostas de 2
Parabéns, prof. Aldair! Gostei muito da crônica. Inteligente e humorística! Demonstra bom conhecimento do idioma. Parabéns, envie-me sempre seus textos. Agradeço.
Muito obrigado Julia.
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